segunda-feira, agosto 27, 2007

saio em silêncio pra fumar um cigarro e por detrás do meu muro um cachorro investe contra outros cachorros presos em suas grades e por um segundo me pergunto se ele desdenha de todos por ter todo o mundo sob suas patas ou se ele inveja a prisão de um cafuné eventual.

as últimas tragadas sempre são as mais amargas.

quarta-feira, agosto 22, 2007

hoje queria deitar em minha cama e só me levantar quando tivesse a certeza de que o mundo não iria sentir o peso dos meus passos.

terça-feira, agosto 21, 2007

enquanto escrevo a minha vida não é cada palavra que escolho que me constrói, mas sim o espaço em branco que eu deixo depois de cara vírgula. de cada ponto. depois de cada texto escrito. é o espaço em branco que eu mancho com letras e o silêncio que destruo com cada som de minha boca. e cada som que faço só me diz que existe um silêncio cada vez maior. seja uma folha, seja uma tela limpa, seja o próprio tempo, o que falta ser é aquilo que mais faz de minha vida aquilo que ela não é. se entre ficção e realidade sempre estou eu, as mentiras e verdades de minha vida nada mais são do que o reflexo de cada cor que pinto no vazio. em cada palavra existe uma promessa de controle, existe o autor que indica o caminho, seja qual for o autor que que encarne a pena, seja qual for o caminho que a contingência e a aleatoriedade escolha. e se essa promessa de controle está na ficção, cada espaço em branco que se segue é do domínio da realidade. e em cada realidade, o presságio de que somos um espaço fora do espaço, de que estamos num tempo fora do tempo, se expressa no que deixo de falar, no que deixo de escrever. enquanto escrevem minha vida, cada palavra que escolho não fui eu quem inventou, não sou eu quem as uso, mas é o espaço em branco que vai ser maculado que constrói tudo o que há de ser dito.

e se em cada promessa há a certeza da quebra, não sou eu quem diz. é o silêncio.

sábado, maio 19, 2007

tenho sentido cheiro de carniça, de algo morto, que me persegue onde vou. um cheiro que não entra pelas narinas, mas, pelo contrário, sai delas. sai da minha boca. dos meus ouvidos. dos meus olhos. sai dos meus poros como o suor de algo morto que se cansou dentro de mim. mas esse cheiro que sinto não confirmo, não vejo onde está esse cadáver e ignoro o gosto de morte que me acompanha. tenho sentido cheiro de carniça, de algo podre, mas não sei onde está. por sentir por dentro, suspeito que está em algum lugar em mim. mas esqueço as vezes e fico procurando com os ouvidos o som de algum coração parado, nessa ou naquela ruína que caminha do meu lado. sinto cheiro de algo morto mas ninguém mais sente, ninguém pergunta, ninguém se incomoda. penso que é como uma fossa que só é notada quando estoura. como o esgoto de um bairro inteiro, represado em uma folha de papel. às vezes procuro com as mãos alguma rachadura em meu corpo, com medo e esperança de achar. o sentido do paradoxo é não ter sentido, mas esse tipo de sentir eu não acho com meu nariz.