quinta-feira, novembro 06, 2008

shady lane

a shady lane... everybody wants one
a shady lane... everybody needs one
oh my god, oh my god, oh my god, oh my god
oh my god, oh your god, oh his god, over god
it's everybody's god,
it's everybody's god,
it's everybody's god,
it's everybody's god,
the worlds collide,
but all that we want is a shady lane


procuro a lua e não encontro. serve a luz de um poste por detrás de folhas espinhos e galhos. mas a luz amarela ofuscante quer fazer meus olhos fugirem e nem de perto substitui a luz da lua alva ou inspiradora para alguém mais dado à esses caprichos de inspiração poesia ou beleza de alguma noite escura um cigarro algo para ler solidão. e não serve a luz de um poste que mancha de amarelo doentio a visão e a noite e esconte as estrelas para mostrar a rua uma moto passando um vigia apitando numa bicicleta. esconde as estrelas para mostrar o chão de cimento quebrado. esconde as estrelas e substitui a lua. esconde o céu as estrelas e a inspiração para lançar sombras por detrás de folhas espinhos e galhos e a sujeira da rua e a fumaça de cigarro que alva e menos inspiradora sobe em direção de algo que se assemelha à noite mas que pode ser apenas um começo de dia ou um momento antes de se dormir ou apenas o final do turno de um vigia apitando numa bicicleta. porque de tudo vivo o que mais se assemelha à estar vivo é a luz de um poste mostrando folhas espinhos e galhos. dizer que está sozinho é uma afronta à grande realização humana à luz elétrica e à classe dos seguranças noturnos.

se na vida quem perde o telhado em troca recebe as estrelas apenas um poste pode ofuscar o pouco que se ganha.

quinta-feira, outubro 23, 2008

眼睛 ou 早晨好太陽,早晨好生活

10:40. acordava, mas os olhos permaneciam fechados. sabia que do lado de fora havia luz. mas parecia que manter os olhos fechados impediria que os sonhos escapassem. como se pelos olhos aquelas imagens fugissem. ah, os olhos. do lado de fora certamente havia luz, mas as pálpebras eram mantos negros e pesados. não impediam os sonhos de fugir, já era tarde. abria os olhos e olhava, como se isso não fosse natural e impossível de impedir. olhava e via tudo embaçado - o nome científico era miopia e astigmatismo. pensava por três segundos - o que em tempo de pensamento é uma eternidade. olhava e via tudo embaçado e pensava por três segundos porque seu sonho tão real e vívido e tão desembaçado de tudo onde podia voar correr amar ter tudo ou nada e flutuar ou respirar na água, porque aquela imagem tão nítida de cores tão fortes, porque aquilo que escapou dos seus olhos ou ouvidos ou do primeiro respirar de quando se acorda, porque aquilo não era e o que era era aquela imagem borrada de si mesmo da janela da persiana de alguma coisa que reconhecia mesmo sem ver no seu quarto? porque o que era era a imagem desfocada, sem os contornos e as cores e sem as certezas? porque o que era era aquilo que ele reconhecia mesmo sem ver? se acordasse em timbuktu, o que era seria estranho, não reconheceria nada. pensou por meio segundo e viu que em tumbuktu tudo lhe é estranho. mas ainda assim, tudo que não é o que ele reconhece sem ver, porque isso era o que era e não o seu sonho onde podia voar correr amar ter tudo ou nada e flutuar ou respirar na água e ter uma casa com ela um macaco e um gato chamado rex? porque ver de verdade lhe tinha sido arrancado do rosto ou dos olhos ou dos ouvidos ou do primeiro respirar de todos os dias?

10:40. acordava, os olhos e as mãos procuravam os óculos. o despertador. o remédio. engolia com a água que deixara descansar a noite ao lado da cama. olhava pela janela e de uma persiana via a luz que entrava em feixes paralelos. bom dia sol. bom dia vida.

quinta-feira, junho 26, 2008

shithappens

você pegava uma cadeira e botava na rua de costas pra janela. de frente pra rua que em nada havia vida de cidade e de gente e de coisas. só uma cadela manca latia longe mas talvez nem passasse em frente. botava a cadeira na rua de frente pro mundo que não acontecia em sua frente. de costas pra um mundo que não acontecia as suas costas. e do alto talvez um avião. talvez cheio de passageiros e malas. talvez descesse do céu em chamas de frente pra rua. de frente pra cadeira. de frente. e o avião caísse em chamas e explodisse enorme bola de fogo e fuligem e pedaços de coisas vivas e mortas. de frente. e você morre. e morrem juntos noventa e dois passageiros cinco tripulantes. noventa e nove vidas se contarmos a cachorra manca que não conseguiu correr. nem chegariam à cem. dezessete primos de alguém. quinze pais e mães de mais outros que chorarão daqui a algumas horas em frente à tv. quase todos só filhos de mães vivas e mortas e pais vivos e mortos que choram sim ou não em frente à tv. um ou dois malditos filhos de chocadeira porque a morte não escolhe caráter. quatro ou cinco funcionários do mês de alguma empresa que não liga muito pra eles. uma aeromoça bonita que dois vôos atrás se chateou com alguém que não morreu dessa vez. três cardíacos e um epilético. um que talvez fosse diabético. tinha três barras de chocolate no estômago que viraram cinzas junto com ele. uma cachorra manca que não conseguiu correr e uma gata persa que dormia em uma caixa do lado de malas e malas de histórias. laptops importantes. cds piratas. bijouterias. fotos e máquinas fotográficas. histórias e presentes. um violão no qual alguém conquistou outra pessoa que no futuro choraria. ou que apenas acreditaria nisso como aqueles que acreditariam nas 4 bíblias que queimariam depois de largadas na bagagem.

dez segundos antes da queda você sentado de frente pra rua o avião em chamas. setenta segundos antes da queda você sentado o avião caindo. trinta minutos antes apenas pessoas. dois minutos depois apenas números. três horas antes despedidas ou esperanças de chegadas. quarenta minutos antes alguns dormiam e esperavam. outros esperavam e sonhavam. outros apenas bebiam refrigerante ou água ou os dois ou nenhum. quinze segundos antes da queda o som do mundo caindo era apenas um avião caindo e você sentado de frente pra rua olha para o lado e vê. é um avião caindo. você vê o avião e você está sentado de frente pra rua. a cachorra manca não possui quatro patas plenamente funcionas mas um olfato cerca de duzentas e dezessete vezes mais poderoso e já antes sente o cheiro de querosene metal gente sonhos e histórias queimando e o barulho do mundo caindo e era só um avião. a cachorra manca tenta correr. você vê o avião e fecha os olhos. dez segundos antes da queda você sentado de frente pra rua o avião em chamas.

ou então noventa e oito segundos antes da queda o avião em chamas você sentado em uma cadeira de frente pra rua. arruma os chinelos. levanta a calça. faz uma dança da chuva. arrasta poeira e pedrinhas e chinelos pelos chão e os deuses da chuva ou do sol ou da água que cai na terra ou das lágrimas do céu ou tupã. ou jeová. ou teotihuacan. ou o santo deus gravidade humidade relativa do ar ionização. ou o santo deus deus dos judeus javé jesus e maria e o menino jesus e o espírito santo. todos juntos ou separados em cada gota fazem chover. e chover e chover como deuses fazem quando querem. 70 segundos antes da queda e você dança para os deuses e deusas que te ignoram e te atendem o desejo. porque uma dança da chuva só existe se houver chuva e sempre assim haverá de ser. e os chinelos já não arrastam porque planam. porque boiam. porque afunam em água que desce do céu e na terra encontra descanso. e as ruas se enchem e a cachorra manca talvez morra por ser manca e não saber nadar, porque nem sempre toda história é sempre feliz. e enquanto você nada a dança da chuva golfinhos nadem ao seu lado. ou peixes ornamentais. ou o beta em seu quarto. e quinze segundos antes da queda e o avião pousa suave. como um navio que voltava de um passeio no céu. vinte e sete mortos mas menos mães filhos primas chefes e funcionários chorando no outro dia. caso isso importe. e os golfinhos saúdam os vivos menos ou mais destroçados. ilesos e milagreiros. o seu peixe beta encontra a liberdade temporária de uma rua. que é menor que o oceano mas enfim. vinte segundos depois da queda e você bóia em volta de destroços e malas e histórias. na mão uma marguerita com guarda-chuvinha e uma azeitona. a cabeça em cima de um corpo que bóia. feliz e triste por salvar vidas e não salvar outras vinte e sete. como se tivesse os matado também junto com o deus da gravidade. mas a culpa não era dele. e os golfinhos faziam piruetas no ar e o céu era lindo como uma tarde misticamente chuvosa pode ser.

ou então cento e trinta e sete segundos antes da queda o avião não vai cair e talvez por um atraso chegue atrasado ao seu destino. ou não. mas cento e trita e seis segundos antes da queda que não aconteceu você sentado em uma cadeira de frente pra rua. de frente pra rua que em nada havia vida de cidade e de gente e de coisas. de costas pra janela que em nada pareça cidade e gente e coisas. você sentado em sua cadeira e nada acontecendo no mundo dentro e fora de você. de cada lado dentro e fora da janela. um carro passa em uma poça de água e você está cheio de lama. a cachorra manca talvez latisse ou perseguisse o carro. e você cheio de lama.


a vida acontece.


quinta-feira, junho 12, 2008

como lego

Basta que do que sinto
Reste algo além do muito
Algo além da voz sua
Basta algo além da falta

e pra cada primeira letra deixo minha última palavra.