Sexta-feira, Novembro 04, 2011

chão

não sei se é raiz ou âncora que nos prende ao lugar onde plantamos nosso coração
que se de um nutre e suga a seiva desse canto, e alimenta algo então distante
do outro é lastro e ponto que estável nos dá pé, por mais turbulento seja onde estivermos
se onde plantamos nosso coração está o norte
é de bússola ou de estrela que precisamos?
é de um que aponte e nos faça girar os calcanhares pra qualquer outro caminho
ou outro rasteje pelo céu e nos faça olhar os mapas à buscar seus brilhos?

o que nos prende ao lugar onde criamos o que somos?
porque saímos e vamos em busca do mundo
e só achamos o mesmo lugar, em outras capas
porque vencemos e ganhamos o mundo
e só temos o passado como o retrato que não muda

a gente anda
sem contar os passos
mas o que é que fica?

Sábado, Outubro 22, 2011

Kaskazini!

muito tempo depois de hoje, depois de quando os gelos aparecerem e sumirem por diversas vezes. depois de todas as tragédias previstas e não previstas. e de toda bonança não esperada. depois de muito esperar, sofrer, crescer e sumir. depois de todas as guerras acabarem e novas recomeçarem. existirá um povo de pessoas que ainda se acharão pessoas, e que contará uma lenda de um povo de pessoas que veio bem antes deles, no tempo que eles ainda tinham como contar, e quando as palavras ainda davam para ser lidas, mesmo quando não faladas. muito tempo depois de hoje, um povo contará uma lenda que correrá mais ou menos assim...

ainda existiam reinos e esse reino, Ardhi, como todos os reinos, possuia reis-deuses e rainhas-deusas, e uma miríade de sub-deuses, semi-deuses, e abençoados, os Mbinguni - seres celestiais. eram os mais bonitos. os mais inteligentes. os mais rápidos. os mais fortes. os mais ardentes de vida. os que pensavam em palavras tão bonitas que não falavam a mesma língua que os outros. que sorriam com tantos dentes que nem toda comida do mundo parecia o suficiente para eles, e por isso elas tinham quase toda. eram tão melhores que nem precisavam afirmar, eles sabiam. e todos sabiam, sem sequer precisar de algum ditado popular, alguma piada, sarcasmo ou qualquer inflexão verbal diferente para se dirigir à eles. eram Mbinguni e isso bastava.

suas mãos faziam música e arte. suas vozes faziam canto, oração e lei e os seus pés nunca tocavam a terra, pois a terra era dos watu, que eram povo, e eram menores, mais feios, mais terrenos. eram watu. todos em Ardhi eram pessoas, mas eles eram watu e isso bastava, até  mesmo como palavra. claro, os Mbinguni olhavam os watu com os olhos mais diferentes possíveis, e como todos são pessoas, entre pessoas existem mundos. e nenhuma questão fisiológica ou genética. ontológica ou astrológica. nenhum mistério secreto havia que discernisse os watu  dos Mbinguni a não ser pelo nascimento. tudo explicava-se da maneira mais simples: os watu não só tocavam a terra, mas nasciam nela. era a terra, que tanto trazia o alimento dos Mbinguni como trazia os watu.

e não era que os Mbinguni moravam em torres de cristal, que se naquele tempo existiam, não faziam alguma diferença porque até mesmo um watu poderia morar em uma torre de cristal, e provavelmente muitos moravam. os Mbinguni moravam e viviam em Ardhi como os watu moravam e viviam em Ardhi, uns melhores, uns piores - mas não tanto quanto os watus que pior viviam, que se faça essa diferença. mas os Mbinguni não tocavam o chão, e do chão nem mesmo vinham. eles nasciam longe da influência nefasta que a terra trazia, e todo e qualquer Mbinguni era certo que nascera em enormes Jua Mashua, onde moravam as suas grávidas por quase todos os meses nos quais os pequenos Mbingunis se desenvolviam em seus ventre e por quanto tempo fosse necessário para que eles se tornassem belos e fortes Mbingunis. e em Ardhi haviam muitos Jua Mashuas, que flutuavam imponentes na maior cidade de Ardhi e bloqueavam o sol e escondiam as estrelas e tamanho era o número e o tamanho de seus balões que o próprio clima se rendia à sua imponência e fazia chover uma fina chuva por sobre a cidade quase todos os dias.

e por sobre todos estavam a rainha-deusa dos Mbinguni, a grande Safi. a mais bela das mais belas de todas as rainhas que Ardhi jamais viu nascer em seu céu, que casara com Bidii, o mais justo e sério e belo e forte de todos os reis que Ardhi jamais viu reinar em seu céu e ambos esperavam Matumaini, que de dentro da barriga de Safi já mostrava que seria forte e impetuoso. o Jua Mashua, que no caso era Kifalme Mashua, de tão divino, real, imponente e grandioso, pairava por sobre Ardhi e lançava sua sombra à terra por sobre watus e Mbinguni igualmente porque nenhum ia tão perto do deus Jua como o Kifalme Mashua, que de tão alto mal se via a cor do mundo em seu detalhe.

e um dia, com uma falta de pressa que o tempo um dia até poderia explicar, o Kifalme Mashua começou a descer. lento e constante. como o peso de um corpo mergulha. e nem todos os engenheiros de Ardhi poderiam explicar ou impedir que o maior de todos os Mashua, com a mais importante de todas as famílias de Mbinguni, um dia tocasse o chão. mas era Matumaini que preocupava, pois com toda força e impetuosidade que atacava sua mãe por dentro ele já mostrava que seria um rei ainda mais justo e sério e belo e forte que Bidii, mas não se mostrava mais apressado visto que o Kifalme Mashua estava - como já dito - afundando. e os dias passavam lentos. e lentamente ia o Kifalme Mashua de encontro à Ardho. Safi e Badii já não mais dormiam e já não mais sonhavam. os engenheiros já não mais dormiam e nem mais viviam muito, tal era a fúria que a justiça de Badii era aplicada. e de tão longe no céu o Kifalme Mashua logo já estava por debaixo de sombras. e Matumaini não nascia. e o chão já era algo que se temia e se enxergava. e Safi e Badii não mais se falavam. e a vida que rasteja já eram um ponto minúsculo mas existente. e a fúria e a solidão se apossava de Kifalme Mashua. o mundo vinha lento. Matumaini ainda não. Kifalme Mashua descia lento. Safi sentia que viria. o mundo vinha lento e grande. Badii estava só. o Kifalme Mashua descia. Matumaini não. Safii sentiu que era o momento. Badii estava só e esperava. o kifalme mashua tocou o chão.

matumaini veio só depois.

menor. feio. terreno.

e nenhum mistério poderia explicar porque ainda assim menor, feio e tão terreno, ele não era nem um pouco diferente de um Mbinguni.

Domingo, Março 13, 2011

der alte mann und das meer

olho para meus olhos e não vejo mudança. se os pigmentos da iris mudaram não sei, nunca reparei. olho para as minhas rugas e vejo as mesmas nos mesmos lugares. as mesmas cicatrizes feridas do tempo. as mesmas marcas que cada mágoa e cada sorriso deixou. a mesma folha de ponto de cada sentimento que passou por mim. nada mudou. os cabelos brancos que conto todos os dias mantém-se os mesmos. quatorze. conto-os com displicência, claro. mas devem ser os mesmos ou devem substituir os que arranco em lampejos de raiva do tempo. ele que nem tem culpa. as dores são as mesmas. antes de chover é o joelho. ao acordar é nos tornozelos. antes de dormir é nas costas. nos punhos. no peito. sempre achando que é infarto. mas pode ser gases. mas pode ser nada. provavelmente nada.

sigo o rastro das dobras em meu corpo e com os dedos do olhar percorro cada micro-vale e cada estrada aberta em meu corpo e vejo o mesmo mapa. posso afirmar depois de categoricamente me observar e analisar o meu corpo inteiro: não mudei de ontem para hoje. mas então porque o peso que não se sente - aquele dentro da cabeça, feito de alguma coisa que a gente não pega, não mede, não pesa e não carrega em algum tipo de vesícula no corpo - porque esse peso, essa fatia de si, essa substância, me diz que estou mais velho?

não mais velho de corpo, porque esse me engana sendo igual, mas eu sei que morre todo dia um pouco. mas mais velho de como olho o mundo. como se meus olhos criassem um glaucoma invisível que apenas enverniza a vida com a laca da idade. olho o mundo olho a janela olho as pessoas e me sinto como se eu tivesse dado um passo à frente. ou para trás, não consigo discernir.

não tenho pensado o mesmo que ontem e não quero pensar o mesmo que ontem. olho com muito pouco enfado o fardo que carreguei na juventude que ainda me pulsa nas veias. mas olho como se não fosse de agora. olho a arrogância da tristeza adolescente - que vê toda a felicidade como ilusão - como algo apenas. triste. vazio. pouco. são tão poucos anos que nos marcam a vida inteira. são tão poucos julgamentos que levamos numa mochila. na bolsa. no bolso da jaqueta. pra um sempre que não é sempre. pra um eterno que dura tão pouco. porque olho assim então se estou o mesmo com as mesmas rugas e as mesmas marcas e as mesmas forças por dentro de cada veia?

esqueço por um segundo. lavo os pratos. ouço algo tocar. fora, nesse caso. faço um esforço mínimo para me sentir vivo, porque viver hoje é força e é vagalhão. a vida é maior do que eu. sou apenas um poço de marcas.

e feliz.

Sábado, Janeiro 23, 2010

hoje vi dois filhos enterrando um pai. com a calma e a certeza de que era aquilo um dos desígnios que desde que nasceram foram incubidos. intento esse nem último nem derradeiro, que se encontra no meio da vida, entre formar família ou passar no vestibular. atravancado no meio de um momento qualquer e outro mais pesado e sozinho. de súbito, ou de muita espera. momento que todos nascemos destinados, mas que por mais que se viva, nunca nos preparamos o suficiente. trabalho de cada filho: enterrar os pais. e escrever com um galho o nome em seu túmulo. e deitar uma flor por sobre uma lápide. e pôr a pedra que marca o lugar onde seu pai devolve ao mundo tudo que da terra ele sugou. para comer a poeira da qual ele agora é parte. deixar a terra devorar o que é agora só carne e símbolo. e se quem morre abre espaço para os que virão, isso conta apenas o espaço de chão que se mora, vive e morre. a falta acompanha até o costume. porque filhos enterram os pais e tornam-se eles também pais a serem enterrados. porque viver é entregar os mortos dia a dia, até sermos nós mortos também.

hoje vi uma mulher enterrar seu marido. e perder duas metades de si. e fazer ganhar o mundo um choro que por baixo quase se ouve o estalar de algo por dentro se quebrando. pobres mulheres que vêm ao mundo para trazer e enterrar, no espaço que sua longevidade permita. que assinam um contrato de enterrar seus homens. por vezes seus filhos. dando menos olhos de ver o mundo do que os olhos que o mundo cobre. cantando sozinhas e dando adeus. sustentando e sendo sustentadas. na força e na delicadeza de que lhes são características.

sei que nasci pra morrer. sei que hoje, de longe, só assisti. e quando sei ou acho que sei que tenho anos de mundo seco temperando minha carne. endurecendo minha pele. ajudando a secar as lágrimas que sobram sob meus olhos. tenho mais ou menos certeza. nunca estarei preparado.

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

about a boy

lembro de sentar no chão de tacos da sala e pensar em cada mundo subterrâneo que deveria existir debaixo de cada retangulo de madeira. e de quando eu levantava algum mais solto, imaginava a luz entrando de repente dentro daquele mundo sombrio e esquecido sob os tacos. pensava muito no subterrâneo, mesmo sem ainda sequer conhecer a palavra. e para os garotos - ou apenas para mim, não sei dizer - pensar sobre mundos sobre os quais ainda não temos palavras é parte de ser garoto. lembro de sentar e pensar o mundo. criar imagens onde o erro do pedreiro fez o rejunte parecer pintura nos azulejos. tenho no banheiro um índio. um padre rezando. um astronauta. um homem-foguete. lembro de fazer caretas pro espelho e pensar em como seria me ver de fora de mim. lembro de querer ser grande. bem maior. e não conseguia saber o que era ser adulto - o que foi sorte - mas queria saber o que era ser tão certo do tamanho dos braços e da força da voz. lembro de ser criança assustada e tensa. não tinha o tamanho do meu corpo, mas o tamanho da minha voz fininha e acanhada. lembro do brinquedo de montar, com o qual fazia mundos. ou casas e mais casas. e brincava de ser alguém maior do que eu era. e só. sozinho também brincava de boneco e fazia lutas em camera lenta. explosões eu fazia com a boca, assim como todo e qualquer efeito sonoro. existiam sempre mais conversas do que tiros e explosões e com um boneco na mão eu tinha desculpa pra falar sozinho e poder ouvir minha voz ou uma voz qualquer que de mim saía, mas não era minha. quando não falava com as coisas, falava com o mundo. mas sempre falei. sempre pensei falando alto sem falar. sempre tive palavras me acompanhando. mesmo quando faltava a palavra subterrâneo ou interestelar. porque eu lembro de pensar em estrelas. e do fundo do transporte escolar eu olhava o céu e pensava. pensava em sair por aquela mesma janela e voar e crescer. e ver o mundo virar criança sob meus pés. e ver o sistema solar virar gude em minhas mãos. e ver nebulosas. quasares. buracos-negros. estrelas de neutrons. muito antes mesmo de saber que existiam palavras pra tantas imagens fantásticas e assustadoras que me faziam dormir encostado no cantinho, coberto dos pés à cabeça.

lembro que ser menino dói uma dor diferente. que não se sente no corpo. que ser menino é ter cara feia sem ter fome. sem ter frio. sem ter medo. menino não chora. menino não fala. menino não pensa. mas cabeça de menino vibra quando a Menina passa. o coração de menino, que brinca de ser duro, pula diferente. o estômago de menino, que serve pra fome, sente uma coisa diferente. sem ter palavra pra isso. ser menino dói a dor de não poder ser menino. afinal, o que é que tinha de ser se não aquilo que sentia, e não o que falavam? do outro lado só ouço relatos, mas do meu lado da trincheira, as explosões e tiros eu fazia com a boca. que pra menino serve pra cabum pou e ratátátá. falar a gente falava por dentro. corpo de menino dói. corpo de menino chora.

lembro de saber que o mundo me pedia mais do que me dava. mas sabia que quando crescesse passava. lembro de saber que o mundo é hostil pros meninos e meninas. mas que quando eu crescesse, aliviava. lembro de pensar que o mundo podia ficar pequenininho sob meus pés. mas quanto mais cresci, menor fiquei.

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

maombi kwa eshu

minha mãe é de fogo e de sal grosso. e rodopia na floresta. e voa por cima dos edifícios. e cala quieta por sobre as massas d'água. meu pai é de vento e de trovão. e cala mais alto quanto mais negra é a noite. e grita trevoso por sobre os cursos d'água e d'asfalto. e atinge prédios árvores e incautos. e é voz presente. e é luz presente. e é rasgar o céu.

pai e mãe, protege-me e abraça-me. afogue os traidores no dilúvio ancestral que pariu o mundo. queime os infiéis na fogueira do rancor divino. esse que destrói cidades e inunda. pai e mãe, leve de volta pro mundo a centelha que descansa por detrás dos olhos e que cospe fogo pela boca. pai e mãe, dança no mundo pra derrubar cada prédio árvore poste e muro que ficar em minha frente. dança pisando forte no chão, pra endurecer a terra que meus pés pisarem. dança pisando no céu, pra fazer chover quando é seco. pra fazer sol quando é triste. pra fazer raio quando é breu. pisa em minha cabeça pra quando eu levantar ficar da altura dos meus sonhos. pisa em meus calos pra quando eu lembrar que tem dor em cada sapato também tem quem lembre dos passos que já dei. pisa forte levantando poeira e som e fazendo música pra ninguém ouvir. baixinho e estrondoso. pai e mãe, protege que a gente some. abraça porque a gente tem fome, também. joga sal e vinagre em cada ferida aberta e faz cafuné se a dor for grande. escuta a prece de quem já não acredita. porque sempre é hora de fé pouca quando a dúvida é muita. abram as portas e as janelas que o chão do mundo é pouco pra tanto ar que quer sair e entrar.

minha mãe é de fogo e de sal grosso. meu pai é de vento e de trovão. meus irmãos me deixaram na escola e me mostraram a rua. e desenharam um mapa em meu corpo pra sempre que quiser me perder.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

carta aberta àqueles que me odeiam (mas também aos que não me toleram, não gostam de mim, e aos que acharam que sou menos bonito do que costumava ser)

onde se lê:


sou e erro. sou humado e se não sou demasiado humano, pelo menos sou humano por muitas vezes entre a hora de acordar e a hora de dormir e erro. erro. erro. erro entre o dormir e o acordar, mas no sonhar o erro não deixa marca fora, só dentro. mas isso não conta. o que conta é que eu erro. e façam as contas dos meus erros, porque quem erra não lembra por muito mais tempo do que o necessário.

e se agora tenho problemas em conseguir fazer do dormir ao acordar uma jornada mais calma e preciso falar que sim, eu erro, é porque tem algo que esquecem e eu preciso lembrar. ouçam minha voz. olhem nos meus olhos. mágoa é cicatriz de erro que cortou a pele da calma mais fundo. rancor é nome feio pra coisa não falada. ou falada à toa, sem ouvintes, numa floresta qualquer em tunguska. eu erro, erro, e erro. mas se não ouvem minha voz e não olham nos meus olhos, fica só a voz do erro. que não muda e sempre te acorda rouca no fundo do ouvido, sussurrando algo que passou-e-não-passará-jamais. nessa voz reside só um pigarro amargo de todas as gripes mal curadas e noites em claro, com frio e sozinho.

à todos que me odeiam, me odeiem ouvindo meus olhos. olhando minha voz. sabendo quem sou eu e quem é meu erro. me odeiem, e tudo bem. me julguem, e tudo bem. mas não esqueçam que eu escuto e falo. quase ao mesmo tempo e quase sempre.


e pra quem procura a moral da história, procure andando e olhando pros lados. pra cima. pra baixo. pra si mesmo. procure no mar e no céu. procure em qualquer coisa com mais de dois lados e menos frágil que o ar que você sopra. porque todo castelo de cartas erguido sempre tem volume, cor e história. mas passado o vento, sobram apenas duas possíveis faces caídas na mesa. se o valete sorri pra você ou te dá as costas, agradeça à quem for de agradecer, mas ele sempre só vai poder te oferecer isso.

atenciosamente,

r.

leia-se:

obrigado.

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

rrënjë & përqafim

eu não entendo o invisível. e a tecnologia dos corpos soltos no ar. não entendo a falta das coisas que conectam e ligam. não entendo a falta dos cabos. dos fios. das tomadas e gambiarras. entendo as plantas. entendo as raízes. entendo o chão também. entendo a gravidade. entendo o abraço da terra nas estruturas radiculares. em outras palavras entendo também. entendo que o dedo na tomada dá choque. entendo o que é USB. RF. AV. entendoas palavras que não dizem nada pra isso. não entendo gente. que pode andar. pode sentar. mas pode sair também. gente que não abraça. gente que não dá a mão e não solta. que não segura na hora do aperto. que não aperta na hora da decolagem. da cena certa do filme. que não aperta quando quer falar e não pode. não entendo só uma mão solta no mundo. sem dedos na tomada para sentir o choque. não entendo o que não vejo. não acredito em fantasma. não entendo o wi-fi. as ondas eletromagnéticas. o espectro invisível da luz. o espectro invisível no seu quarto. os espectros que rondam o mundo. não concordo. não entendo gente. não entendo telefone sem fio. nem gosto muito. gosto de gente. gosto de ligar. não entendo não ligar como não entendo desligar assim. eu entendo de fios e de cabos e de ligações e de ciranda. entendo de brincadeira de criança mesmo brincando sozinho. eu entendo lego. eu não entendo o pé no chão quando o pé destoca o frio. eu gosto de pé na lama. do abraço da lama. da lama entre os dedinhos. o som e a sensação de ter raiz por um segundo. eu gosto de pôr a mão em sacos de sementes. feijões. favas. arroz. eu entendo as sementes querendo estar sozinhas dentro da terra. com os pés na lama. com a lama entre seus dedinhos. eu entendo as plantas e as coisas que ligam. eu entendo as raízes e os cabos. eu entendo o tronco. eu entendo o galho. eu entendo as folhas. eu entendo o que é subir ao céu pelo seu punhado de luz. eu entendo o que é levantar a cabeça. não faço. entendo.

Sexta-feira, Julho 17, 2009


Melô do Amor Dentro da Ótica de uma Conjuntura Histórica e Política no Contexto Latino-Americano (MC Raphael)


Bárbará se ligue nessa estrofe que eu mando
pra rimar de amor, sou melhor do que o wando
mas rap é uma parada pras parada bem mais forte
e tenho uma temática guardada no estoque

eu venho te falar do golpe em honduras
a América Central vem passando por agruras
mas a democracia tem neguinho que só quer
pra dar pra americano, que bando de mané!

na história política, a gente só se fode
os mano que se preza pula fora quando pode
mas voto nulo e branco só se fode com a gente
tamo nesse país onde o Sarney foi presidente

lembra da história de brasil e portugal?
os portugueses vinham pra fazer uso do pau
aquele que deu nome, a-o nosso país
mas essa é a história que a escolinha diz

o pau que eu vou falar é doutra natureza
os portugueses vinham pra fazer é safadeza
comeram nossas índias, que esculhambação!
mas pelo menos deu a bela miscigenação

no resto da América o lance era da Espanha
o mano Hérnan Cortés já chegou cheio de manha
pintou em Montezuma e mandou o enganation
mas mal sabia ele que o Zuma era do gueto!

Espanha genocida partiu logo pr'ação-ão!
rolou um EXTERMINE nessa civilização-ão!
e pra complementar, ainda achou pouco
buscou o Eldourado pra rapar todo seu ouro!

no panteão da história de onde nós fomos o palco
eu tenho que afirmar: já começou tudo errado
sofremos fudição - yo!
roubaram nosso chão - yo!
e agora a gente sofre até pra comer um pão!

voltando pro país d'onde vim e onde amo
acabo de lembrar da gripe desse ano
os porcos inocentes, que só tomam no cu
ficaram de culpados por três mortes lá no sul

e aí é que me lembro de nossa desigualdade
e lembro que a história é permeada de maldade
o sul e o sudeste querem dizer "sou o tal"
mas vem para o nordeste, e passam a pagar um pau!

porque nesse país de maravilhas naturais
tem praia, cachoeira e os mais belos animais
excluo com certeza, o povo do senado
aquilo não é anta, é bando de tapado!

me volto então pra crise da atual conjuntura
um bando de fudido sem a menor compostura
se for pra nos roubar, inventam até decreto
mas ficam se enrolando por um tal Ato Secreto

segredo por segredo, vejam minha felicidade
a única explicação, é o amor de verdade
a mina é zoada e só fala o que quer
mas tou do lado dela, e eu não arredo o pé!

veio do interior, na maior inocência
chegando do sertão, cheinha de doença
mas viu que o bagulho da cidade é melhor
e encontrou seu rapper, e não ficou mais só

ligado na história dessa bela menina
gostosa e melindrosa, estaile jacobina
mandei minha verdade, sem piedade nem dó
curei minha meningite, e meu vício no pó

eu sei que sou o bom, confio na minha rima
foi através do rap que eu me enchi de mina
mas já selecionei, com certeza que é o certo
agora conquistei porque eu sou muito esperto

na briga do amor, vale o que for pior
até uma cantada do Agnaldo Rayol
mas já fugi do tema, e com medo da crítica
voltemos pra história, a história política

o homem não é só - ele não é uma ilha
se ligue na parada que eu mando nessa fita
saímos de honduras, e nessa diatribe
chegamos em Havana, a jóia do Caribe

Cuba não é a terra onde vive o Lobo Mal
também não é lugar pra moleque pagar pau
se ligue na idéia, se embale no compasso
e vamos conhecer a terra de Fidel Castro

lá é a terra guardiã do comunismo
vizinha do puteiro do nosso capitalismo
na universidade, a vermelhada vibra
mas para a pelegada, a Cuba é uma pica!

na hora do aperto, aqui pobre se ferra
e lá em cima mesmo todo mundo tá na merda
mas se rico que é rico, chora sangue em Dubai
o pobre se fudendo não tem asa de papai

a crise mundial afeta todo mundo
o dinheiro do rico é cheque sem fundo
mas pra o pobre então, aí é sacanagem
não fica nem trocado para completar a laje

e eu fico pensando, será que eu me extendi?
a rima me levando o tempo passa e eu nem vi
só pra finalizar, deixo o recado certo
Brabinha eu te amo e comigo o papo é reto!

Quinta-feira, Abril 16, 2009

i'll swallow until i burst
until i burst
until i


depois de quase um mês a coisa não sai do corpo e não sai da cabeça e não é digerido ou metabolizado ou expulso pelo corpo em suores ou falas ou gestos e nem se dilui nos humores e nos sangues em veias e artérias. a coisa engrossa e se quer sair, sai pelos olhos em gotinhas miúdas e cheias de oco no peito. quase não sai. nem se tento abrir o parêntese pra falar como eu, consigo -já é tempo que consegui expulsar esse último personagem dos meus contos e novelas. e são os anos de quarto escuro ou claro quente sempre e sozinho tantas vezes. enchendo o ar ressoando nos móveis paredes e no corpo - pois é vibração. embalando um sono, entoando um grito, acompanhando qualquer sentimento besta ou impressionante, qualquer revolução ou resignação, qualquer coisa boba que dez anos de uma vida curta possa trazer, cheia dos exageros que fazem a pessoa e a idade.

da experiência o que se apaga é o tanto de suor aperto sede desconforto e dor, sim, porque o corpo ainda dói. lágrimas as vezes não doem, e quase nunca se esquecem. e nem é por tentar florear o que na verdade foi só o que foi: não foi só o que foi nem nunca poderia ser porque não foram só dois aviões alguns ônibus metrô trens e taxis que me levaram até lá. foram eles e os tais dos dez anos e as tais coisas bestas que me arrastaram pelos cabelos, pernas, lágrimas e qualquer coisa que ainda bata aqui. enfim, enfim.

não foi só o que foi.