domingo, junho 08, 2008

schweingeist

sonhei que fazia faxina em minha casa sempre tão bagunçada. e a grande surpresa que me acometia era descobrir que minha casa era assombrada por um fantasma. o fantasma era visível o tanto quanto é possível para os sonhos, mas ainda assim assumia uma leve transparência, como se fosse preciso frisar que ei, é um fantasma. mas no sonho o fantasma em nada me assombrava, como disse, era uma grande surpresa, como descobrir uma gaveta em um armário que você nunca tinha visto antes. no caso era um fantasma. e por lembrar do armário, minha faxina havia começado por lá e o fantasma como se planasse por cima do meu ombro direito - ou às vezes do esquerdo, mesmo preferindo o primeiro - vigiava e supervisionava minha faxina.

enquanto organizava à maneira de sonho uma gaveta maior do que parecia, encontrava coisas de gaveta que numa faxina tornam-se ex-coisas nossas e encontram um destino que fica entre a lixeira mais próxima ou um despossuído mais longe. e o fantasma por cima do meu ombro lançava seu olhar. ei, esse broche vai jogar fora? mas ele é horrível e eu jamais o usaria. mas foi sua avó quem te deu, e é por isso você fica de lado nos almoços de família. e eu queria jogar o broche fora, mas o fantasma tinha razão. enquanto o broche voltava ao seu lugar de origem o fantasma ainda mantia seu olho clínico por sobre meu ombro direito. ei, e esse vestido, não foi o roberto quem te deu? sim, foi, mas nem nos falamos mais e além do mais o vestido nem cabe mais em mim e está fora de moda. sim, mas quantas vezes você usou esse vestido e quantas vezes você se sentiu bem e bonita com ele? sim, mas isso é passado. mas o passado só tem esse nome por capricho, ele sempre é presente. e eu concordei porque só de ver o vestido lembrei da primeira vez que o vesti e como num sonho - porque o era - eu já me encontrava vestido nele. achei então um álbum de fotos com fotos que nunca tirei. de momentos que vivi ou não. mas nem dei atenção, passei um pano pra tirar o pó e guardei. e não vai sentar e rever tudo isso? não, ué, eu tou fazendo faxina. e o que é rever fotos se não fazer uma faxina de dentro pra fora? não sei se entendi bem o fantasma, mas desisti de argumentar e por fim concordei e passei o resto do sonho vendo retratos. até que notei que o fantasma que me assombrava não demandava a posse de seu domínio, e pelo que eu lembrava, por baixo de minha casa não jazia nenhum cemitério indígena ou qualquer razão outra para que um fantasma a assombrasse. o fantasma não pedia nada, só observava minha faxina e me atrapalhava. fiquei irritada e acordei.

quando olhei pro lado, debaixo da minha coberta, vi o fantasma de novo. só que dessa vez com mais substância e nenhuma transparência. como se vivo e encarnado estivesse embaixo do meu lençol. aí sim eu me assustei. e via que mesmo com todo o escândalo que se pode dar quando se acorda do lado do fantasma que acabara de sonhar, o fantasma do meu lado, feito carne, osso e pulso, ainda dormia e ressonava com um sono tranquilo de quem dorme e sonha. levantei de um salto e corri pro banheiro, porque não há nada que água no rosto não lave de um sono. olhei pro espelho e me vi como nunca tinha me visto acordada. eu era visível tanto quanto é possível ser quando se está consciente, mas assumia uma leve transparência. vi que meus pés no chão também mal tocavam e voltei flutuando para cama que eu já não reconhecia. deitei do lado do corpo que dormia para tentar de novo dormir e sonhar.

mas estando em dúvida quem era o fantasma. e quem era eu.

sábado, junho 07, 2008

carreira solo

Solidão...
Que poeira leve
Solidão...
Olhe, a casa é sua
O telefone chamou,
foi engano...


- alô, aqui é a adriana...
- adriana, sou eu. não sei o que fazer se é que fazer algo é algo que eu possa fazer. mas não sei. não sei o que dizer mas digo porque está entalado aqui. está entalado e querendo sair. cuspo pra fora. desculpa usar o telefone. mas você está tão longe e eu aqui me desesperando. me exasperando também. me desculpa. mas está frio aqui na rua. não tem fila pra usar o orelhão, mas está frio. juro que não vou demorar eu só precisava falar mesmo porque eu estou desesperado. é como se a gente pagasse pra respirar e eu acabasse de notar que acabou o dinheiro na minha carteira. é esse desespero que eu tou falando. meus pulmões cheios de ar mas sabendo que o fim vai chegar e a culpa nem é minha mas é. não desliga. eu juro que é rápido. eu só precisava dizer isso mesmo. eu sei que nem disse nada ainda. mas eu queria dizer. nem que fosse pra saber que você está aí me ouvindo. ainda está aqui entalado, mas já não sei mais. sei que tudo tudo tudo tudo tudo tudo faz falta. e o que quer que bata, dói. desculpa mas tá acabando o meu cartão queria apenas que você me ouvisse. eu só queria que você soubesse que eu...
- ...e não posso atender no momento. deixe sua mensagem após o sinal.



Na vida quem perde o telhado
Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E de soluço em soluço esperar


Só (Solidão), de Tom Zé

domingo, abril 13, 2008

lumpenmensch

existe um pedaço enorme de tempo indo embora e as mãos não são bastante para agarrar o que sobra. as migalhas escapam por entre os dedos e o que sobra não só é vazio. mas um enorme vulto. da parte grande que se vai. a vista perde a vista. o som da ida não mais se ouve. o adeus foi dado às costas de alguém que não estava ali por você. o cheiro e o gosto são daquilo que já se esqueceu. mas que sabe que parece ser bom. lembrava ser bom. as migalhas caem por entre os dedos e o tempo escorre por entre as frestas abertas de cada marca deixada. de cada cicatriz aberta. existe um pedaço enorme de tempo indo embora e as mãos estão ocupadas com duas. quatro. oito coisas. malabares de pinos infinitos. jogados pra cima. sem mãos suficientes pra pegar quando vão ao chão. o tempo indo embora e os pinos caindo. as migalhas escapando e o tempo caindo. o vazio indo embora e o vulto de algo que já não se sabe se acomodando. tomando o espaço que um dia foi do tempo que foi embora. e que está indo embora. e que sempre vai embora. sempre foi embora. há sempre de ir embora. e as mãos ocupadas mas querendo dar o adeus às costas de alguma coisa que não está ali por você. as mãos ocupadas tentando segurar o tempo. mas as mãos não são o bastante. e o tempo vai embora. e os pinos vão caindo. e nada acontece. e tudo acontece à sua volta. e não tem como parar tudo e dizer que chega. porque tudo acontece. e sempre acontece. e sempre é agora. e é sempre ao mesmo tempo. e sempre as mãos não vão ser o bastante. não há mãos. pés. olhos. bocas. narizes. línguas. ouvidos. suficientes.

queria ter os dedos por entre os cabelos do tempo. pra carinhar a memória. os dedos sobre os braços do tempo. pra segurar o que vai embora. os dedos no ventre do tempo. pra avivar o calor de tantas estórias. e o tempo vai. os pinos caem. a cortina se fecha. o espetáculo não vai ouvir nenhuma som de palmas. e você está sozinho no escuro.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

daimon

de tantas muitas existe uma voz em mim adormecida que fala quando todas vozes estão roucas de gritar e eu não ouvir. que fala enquanto eu insisto em sonhar, e não dormir. que me engana enquanto conta verdades misturadas ao que lembro, sempre mentiras. essa voz adormecida que me diz que não existe espaço pra espera, mas que sentar e cruzar os braços é tão bom quanto sair pelo mundo e respirar o ar da vida. essa voz que diz que o amor é um demônio que se conjura à um, mas que se exorcisa à dois. a voz que fala de mim como se me visse de longe, mas que está tão dentro de mim que sou eu, vendo alguém que não conheço tão de perto. uma voz que não esquece pois é memória viva, gritando enquanto não ouço, dormindo enquanto eu sonho.

e de nada adianta acordar ou atentar, o que ela fala é um eco em silêncio.