sexta-feira, dezembro 23, 2022

esquina

 é enquanto deito que me vejo cercado. por todos os flancos elas chegam: as visões de um futuro que se dissipou. não como a naftalina que sublima nos momentos que esquecemos dela, ou como o gelo que derrete lentamente num copo até o ponto que queremos apenas mastigar e destruir o mesmo. futuros que se dissiparam como uma cinza de incenso, que poucos segundos antes pareciam sólidas, flutuando como por magia, e uma lufada de vento daqueles que mal sentimos as levam embora e nada sobra para que ao menos tivéssemos a sensação de que podemos guardar, recombinar, juntar os caquinhos minúsculos e remontar de alguma forma o que ela havia sido. mas a lufada de vento também veio como tempestade, abrindo portas, janelas, carregando qualquer coisa menos fixa em seu chão, em seu espaço, arrancando tudo que não tivesse ou fosse raiz, desfolhando todas as folhas de seu próprio outono. 


e enquanto me deito eu estou ali, uma ilha, cercado. 


uma cama de igual tamanho, mas quilômetros maior. o mesmo travesseiro, numa fronha que não reconheço. novas paredes, tetos, a própria atmosfera como se nova. mas eu estou ali, uma ilha. não como uma daquelas inóspitas, meus mapas já foram quase todos esquadrinhados e os tesouros que lá marcavam já foram há muito desenterrados, e os que permanecem sob todas as camadas de entulho terra solo areia e pedra já não sei se valem a procura. se são ouro-de-tolo ou dobrões e escudos pouco importa, a riqueza dos mil-réis só com o tempo se vê. mas os mapas marcam com um x vários pontos que o dia de hoje, e a noite quando me deito, não me dão o impulso de pegar o bornal de explorador e pular de súbito com o ímpeto de sim, vamos agora desenterrar você. e como todo mapa é ficção, existem as áreas cinzentas que ainda não querem contar nenhuma história, mas lá estão esperando serem desenhadas. e as próprias áreas claras e definidas, desenhadas em cada entranha de costa, enseada, elevação, projeção, longitude e latitude, também sei que fui eu quem desenhou e sei que ali pode dizer a verdade ou pode fazer qualquer navegante se perder pra sempre na falsidade consciente ou não de quem pensou estar definindo um mundo interno, mapeando cada caminho que se fez possível até aquele momento. mas o gps é uma maravilha tecnológica que não se transpõe bem pro mundo interno da metáfora, onde todos nós estamos sempre irremediavelmente perdidos. 


e enquanto eu divago sobre me encontrar, eis que me perco de novo e relembro uma memória que não vai mais existir. niqui somos apenas capazes de viver o presente, estamos fatalmente presos nesse tempo, porém recebemos visitas. o passado é o conviva mais recorrente, pois ele sempre surge trazendo as dádivas de nosso hipocampo, nos amarrando no enlameamento da memória, nos fazendo rir de graças perdidas, arrancando a lágrima que nunca esteve lá mas que veio tão fácil assim. mas o futuro também,  por mais que se diga que o futuro ainda não existe - o que é verdade - ele também nos visita através do desejo, do sonho, do plano, da vontade, do costume, do acostumar do tempo que achamos que não vai mudar. o futuro nos visita pra nos mostrar onde podemos chegar, presente por presente, pulando e fluindo no balé do tempo, até chegar lá. seja lá onde for, muitas vezes diferente do que se imaginava antes, mas lá. 


mas esse futuro se dissipou, numa tempestade que levou suas cinzas.


e o que sobrou foram várias esquinas. e a sensação de que uma hora alguém vai virar a esquina lá na frente e voltar ao meu campo de visão. a sensação de que existe algo ali - à espreita, ou esperando, ou apenas ali, só dobrar a esquina que está lá, é só chegar. a nítida noção que da cama, virando a esquina pra cozinha, a pessoa está lá, fazendo qualquer coisa no presente dela, mas que logo volta pro seu futuro. deitado numa cama cercado de esquinas e a pressão no peito dizendo que está logo ali, é só dobrar a esquina. logo surge, fica olhando. é só levantar e cruzar o limiar da percepção que toda esquina representa, e você vai ver. o peito dizendo que está quase ali, bem perto, quase dá pra ouvir o respirar, o arrastar de pés, os membros superiores fazendo qualquer coisa e deslocando o vento à sua volta. 


mas não existem esquinas. o quarto é um quadrado que de um lado dá pra uma nova rua e pro outro apenas um corredor escuro até a porta que prende o aqui dentro e o lá, fora. 


e como alguém que já comeu qualquer pimenta sabe o que esperar da mesma, às vezes a gente sabe o que esperar da dor. a gente sabe que a capsaicina não queima de verdade, apenas engana suas terminações nervosas. nenhum dano físico real há de surgir da pimenta, apenas a dor temporária de seu corpo entendendo o mundo externo como o mundo externo quer ser entendido. e o fogo na boca no peito nas vísceras não é fogo, é apenas um fruto sendo deglutido. 


não é fogo, não é dor. é apenas um fruto sendo deglutido. apenas um fruto sendo digerido.


quarta-feira, setembro 09, 2020

ao pó retornarás

quando eu fiz psicologia e estava começando a atender eu tive que procurar terapia, não só para lidar com o que eu já vinha lidando especialmente naquela época, mas a partir dali eu tinha responsabilidade com pacientes e minhas questões que já atrapalhavam minha vida não podiam atrapalhar a dos outros, minhas interpretações não podiam ser influenciadas pelas minhas problemáticas e enfim eu tentei. fui em várias terapias sem muito sucesso, mas na última terapeuta ela já na segunda ou terceira sessão me puxou esse fio da minha dificuldade em ser atendido, em falar e aceitar ser ajudado, e conversamos sobre modos de se expressar. na época eu já escrevia bastante, e jogava tudo que se passava por mim em uns microcontos cheios de metáforas e ficções absurdas mas cheias de um sentido que pra mim era uma coisa, mas que eu mascarava com tantas palavras conseguisse. eu acho que era um jeito de botar pra fora as coisas mas ainda me sentir protegido, e encontrar acolhimento não nas minhas questões, mas na forma como aqueles textos imbricados iam reverberar em outras pessoas, por mais que os outros encontrassem tantos outros sentidos diferentes dos que eu havia escondido ali. isso talvez fosse parte do jogo até. 

antes disso eu fui um monte de coisa, mas primeiramente eu fui criança. e diferente de um adulto, uma criança ainda não é um amontoado de escombros mal ajambrados. uma criança ainda não é uma coleção de ruínas, mas é ali na criança que as primeiras rachaduras vão se somando no alicerce de destroços que nos tornamos. a vida simplesmente acontece, e muito pode ser explicado depois, mas muito é apenas a vida acontecendo. chegar à vida adulta pode ser um navegar remado com empenho e direção, mas as vezes é só maré levando e vento soprando sem você entender muito bem pra onde vai. 

e agora eu falo de minha avó, joelina. se eu acreditasse em alguma coisa, eu diria que hoje ela fez sua passagem. mas por mais que eu possa dizer essa palavra aqui e ali, é mais uma convenção do que algo que eu acredite mesmo. não houve passagem. ela estava viva, não está mais. amanhã será cremada e todos os átomos que compõem seu corpo voltarão a fazer parte de algo inanimado, até voltar a fazer parte de algo animado eventualmente. e eternamente esses átomos irão seguir seu caminho: surgidos no coração de uma estrela, eventualmente pararam em minha avó. e agora seguem seu rumo, como vêm seguindo há bilhões e bilhões e bilhões de anos. 

a vida de joelina foi longa, e dos seus 95 anos foram vários escombros acumulados, como todo mundo que quase chega ao centenário deve ter. turrona, forte, temperamental, teve que criar 3 filhos depois de ser largada pelo marido, meu avô. e teve sua parcela de vitórias e derrotas na vida adulta. uma pessoa completa com todas as histórias e profundidades possíveis, e que eu jamais seria capaz de esquadrinhar nem se eu quisesse. uma pessoa completa em seus motivos, e completa em suas razões e desrazões.

infelizmente, em um ponto da história as nossas vidas seguiram entroncamentos diferentes. a vida simplesmente acontece. e muito poderia até ser explicado agora, mas em sua maior parte foi o que já disse três parágrafos acima: foi apenas a vida acontecendo. de nada adiantaria agora querer se perguntar onde remamos longe um do outro, e onde foi só o vento e a maré afastando por tantas e tantas vicissitudes que a vida insiste em ter. 

mas antes disso tudo eu fui um monte de coisa, mas primeiramente eu fui criança. e ela estava lá. e estava lá antes disso, quando meu pai antes de mim também foi criança. um fio que une pelo sangue e que acumula tantas e tantas histórias, três gerações de vida acontecendo. macrocontos, romances, novelas e folhetins de histórias e mais histórias metafóricas e literais, cheias de sentidos e palavras mascaradas e descaradas. vidas imbricadas que reverberaram em mim. agora. e tudo que levou à esse momento agora não vai fazer sentido, mas eu precisava expressar - não tão escondido agora. acho que é também parte do jogo. 

por mais que estivéssemos distantes, hoje se foi não só ela, mas uma parte gigantesca de minhas histórias. histórias que eu não ouvi. histórias que não deu tempo de saber. histórias que aconteceram comigo antes de eu ser escombro. histórias que aconteceram antes de eu sequer existir. parte de minha história se foi pra sempre, possibilidades se fecharam pra sempre e só me sobrou isso aqui e o sentimento que agora aparece é essa falta, essa cessação. talvez um pouquinho daquela culpa de sobrevivente, mas de um jeito diferente. uma parte de mim se foi e infelizmente a vida aconteceu de uma maneira que agora pesa um pouco mais do que anteontem, que talvez eu nem tenha pensado nela. tem hora de sentir, e é agora. depois vai ter a hora de racionalizar, e ver que não adianta muito encafifar nessas coisas. foi o que a vida apresentou. a vida sempre acontece. é parte do jogo. 

mas bem, eu precisava me expressar: adeus vó.


quarta-feira, outubro 26, 2016

pritt

parece um visgo. uma segunda pele de cola permanente. os elétrons de sua pele querendo se ligar à cama. forças eletromagnéticas inexistentes mas que atuam no seu corpo inteiro. olha só que mistério. um corpo-imã desenhando de forma invisível aqueles rastros em círculo em volta de seus polos. grudado. parece um visgo.

a cama já criou uma ranhura em seu formato e como uma ficha num fliperama desligado você está lá dentro. um slot. um molde. seu corpo-imã não tem porque lutar contra, aquele é seu espaço. e você não quer lutar contra as forças mais poderosas da natureza. nossa física conta quatro forças que explicam e unem tudo no universo e de todas elas não é nem a gravidade a mais forte dentro da escala do seu quarto, mas até ela acelera seu corpo sempre pra baixo a 9 m/s². pra dentro da cama. pro molde.

parece que tudo está suspenso. e não no sentido de parado, mas no sentido de em suspensão. um atoleiro. areia movediça. os grânulos de areia em suspensão num colóide grosso que te engole como nos filmes, mesmo você sabendo que ninguém morre engolido por areia movediça. o símbolo é o que importa. você afundando pouco a pouco. os braços pra cima sendo seu último sinal pro mundo ei eu tou aqui alguém me tira dessa porcaria de tropo antiquado de filme. o carro atolado na duna que cada força que faz pra sair, cada pisada forte no acelerador, mais e mais se engancha nas malícias da areia fina e inocente.

parece um visgo. não aquele arbustinho fofo, mas aquele visgo que sua vó fala quando passa a mão na sua testa e te enxota pra ir pro banho pra tirar a nhaca. visgo e nhaca, palavras que se afundaram também na areia movediça da história e vão aos poucos morrendo com seus falantes que talvez pouco se esforçaram pra guardar na oralidade essas graças, ou apenas vão aos poucos morrendo porque há de ser assim com tudo um dia. palavras que também se afossam no fundo do poço do que já fomos, e que pode ou não virar combustível fóssil para queimarmos em nossos neologismos ou apropriações de palavras estranhas. nhaca, visgo, visguento.

o tempo é visguento. e como o nome acusa, gruda na pele como cola permanente. o corpo-imã que se arrasta no tempo levando grudado no corpo magnetizado todo atoleiro que você já se meteu. e por mais que alguém diga que ele na real nem existe, vai lá explicar pra quem já nada há muito na viscosidade do tempo que aquilo é só uma percepção limitada por nossa cognitividade. foda-se, meu amigo. o tempo existe e gruda na gente como a mão da vó na nossa testa. essa mão que o próprio tempo há de engolir no buraco da inexistência, mas cujo grude na sua testa pra sempre vai colar em sua memória.

e vai lá querer deixar tudo em palavras lógicas e reproduzíveis e procedimentais e sistemáticas e controladas e experimentais e o que quer que seja. no fim das contas, sobra você, o visgo do tempo, o quarto, a cama, a ranhura. as quatro forças que a física explica unindo seus núcleos,cindindo suas partículas, carregando eletricidade e te fazendo deformar o espaçotempo e afundar na cama a 9 m/s².

mas vai tentar explicar, vai.

segunda-feira, janeiro 04, 2016

reisen

o retorno é sempre um tour de force fracassado. a volta e a força. força e forca forçando sem o vigor físico que já não tenho, para arrancar do vigor mental que finjo ter o esforço excepcional que pfff nunca vou conseguir. voltar lá é sempre falhar miseravelmente sem nem tentar, aí sim é uma proeza.

e as promessas que fiz para mim mesmo, em segredo e modéstia, são lá que são testadas e vejo que por mais que corte o carboidrato da dieta de sapos que engulo, aquele pneuzinho só aumenta e aumenta e pesa cada vez mais na balança das coisas que ainda importam - mas que cada vez menos eu questiono se deveriam importar. as promessas falham e se acumulam como a pilha de livros que já desisti de atulhar há tempos, mas que ainda assoma alta e sem prognóstico positivo ou aquela nesguinha de esperança que o paciente alimenta com um sorriso lívido de que quem sabe um dia eu tico um por um e adeus voltemos às compras voltemos à pilha.

o retorno hoje já é ida, e a vinda sim é o verdadeiro retorno. qual realidade agora que me representa? quem sou hoje se não um fantasma do presente, assombrado pelo beta test do fantasma do passado, evoluindo pra um fantasma v2, v3, v4, v5.1.45-a e que nunca se forma, nunca se fecha e nunca nem sabe ou lembra o que é de verdade. um fantasma feito de miasma diluído no éter de uma nebulosa de sei lá. o retorno a ida a volta o ser o estar tudo confunde e se mistura num caldo ralo de eu, que não engrossa com toda farinha de tanta coisa que há no mundo.um go horse cego numa linguagem que sabe lá quem é que domina.

e talvez seja não o ato que me circunscreva, mas o cochilo. a falha. a negligência. talvez eu seja o que eu estou precisando ser. o que estou faltando ser. o que já foi dado a dica tantas vezes e bem, já tá mais do que na cara. eu talvez seja tudo isso que eu nunca consegui ser. e talvez eu seja também a cobrança das coisas que eu não consigo entregar. e talvez eu seja também a culpa os tropeços torções repuxes e os ais e uis. se não trilho um caminho, pelo menos manco um rastro qualquer. talvez eu precise esquecer mais o que existe e focar no vazio. o caosmo e a maiêutica de um big bang pequeno e silencioso.

pode não ser nada também. pode ser só aquela auto-comiseração safada e pedante de quem hesita demais. pode ser só qualquer sistema de opressão falando por mim. patriarcado. judaico-cristianismo. windows. storytelling. d&d. pode ser só a falta de preocupações reais. pode ser o mal desse século: a pura falta de uma escabiose e o seu prurido, de mãos dadas e nomes bonitos, pra esconder o real sentido de reclamar de barriga cheia.

o retorno é sempre foda, mas não tem como escapar. pode resumir na lápide.

sábado, maio 16, 2015

nephelococcygia

parado olhando o céu. um pato. um carro. um trem desgovernado. você. as nuvens me dizendo coisas ou eu mesmo querendo que elas digam: dá no mesmo. parado olhando pro céu, o sol às costas. a sombra no chão me diz: sou eu. o desenho esculpido no chão. e por mais tempo que passe, e o sol descendo no céu, o desenho aumentando e eu me sentindo cada vez menor. parado olhando o céu. você. uma pêra. uma girafa. na minha cabeça são só gotículas de água em suspensão: eu sei. na minha cabeça é uma mensagem dos astros: eles mesmos, que já me dizem tantas coisas que eu poderia tentar acreditar, mas só finjo. o céu se pondo em minhas costas, a sombra no chão agora é todo o chão e eu sou sombra e sou o mundo inteiro. mas o que quer me dizer a natureza ou o que é que eu mesmo quero que ela me diga? não sei. são efeitos físicos. são mensagens. são interpretações. o céu. o sol. a nuvem. eu. você. eu querendo que isso tudo faça sentido.

não faz. não vai fazer. não acredito, mas finjo que é isso mesmo.

sexta-feira, agosto 22, 2014

entropia

resgatar o que as pessoas têm de positivo, acreditar sempre no melhor de todo mundo e defender quem já me fez mal por acreditar que fazer o mal é um lapso e não caracteriza uma pessoa sempre foram políticas minhas que eu considerava cláusula pétrea na minha constituição de como lidar com o mundo. mas as vezes a gente precisa tomar uma porrada na cara - da vida, ou de gente nada a ver - pra acordar que existem coisas que escapam o campo de "moralidade" que a gente estabelece pro mundo.

as vezes vão aparecer pessoas que faltam caráter ou maturidade e que por alguns momentos me fazem me sentir idiota de sempre tentar procurar o tesouro que cada um pode esconder em si. infelizmente eles vencem por um dia, dois ou uma semana, e eu me jogo no círculo vicioso de negatividade que sempre fui extremamente contra. mas eu não posso esquecer que sou responsável apenas por como trato o mundo, e não como o mundo me trata. e não revidar uma agressão não é covardia. evitar de fazer mal pra alguém que te faz mal não é falta de pulso. é simplesmente tentar evitar que esse mundo escroto e selvagem que a gente vive domine os meus atos e que eu seja um veículo de reprodução dessa podridão.

masoquismo com a própria cara é triste, mas acontece. mas masoquismo com a cara dos outros é sadismo, e isso o melhor a se fazer é cortar de vez de nossas vidas.

o amor é uma energia que você deposita nos outros, mas as vezes não dá. mas manter o amor que existe em você, respeitar a entropia, e canalizar esse amor pra outros lugares sempre vai ser uma opção triste, porém necessária.

ficam as lições, e o couro mais duro pra superar essas coisas que nos fazem pra nos machucar. mas no final, eu vou seguir e superar, e continuar semeando toda quantidade de gente maravilhosa que eu consegui conhecer e ter como amigos na minha vida. esses ficam, e me ajudam a sempre acreditar que tem gente incrível no mundo, e esses vão ser os guias, as âncoras e os faróis pra tudo de mal que pode nos acontecer.

sábado, agosto 16, 2014

ventrículo esquerdo

a minha sorte é que sei dormir. sei dormir e esquecer. e acordo como quem volta de uma viagem, trazendo a lembrança que a saudade não apaga, deixando pra trás o pó da estrada e as farpas do chão de casa. sei dormir e acordar lembrando apenas do que de bom eu deixei na noite anterior. por isso não sonho. não quero inventar histórias mais, quero apenas dormir. e esquecer. e acordar. 

e minha sorte é que sei dormir. e durmo em qualquer lugar. na cama, no chão. no sofá. na cadeira, segurando a mão de alguém. no metrô, pensando bem.  sem sonhar. apenas dormir. e esquecer. e acordar.

e de cada mundo novo que descubro à minha frente, ainda sonolento e confuso, sempre aparece o sorriso que deixaram. o elogio que me enrubesceu. aquele carinho velado ou exposto, que aqueceu mais que esse edredom cheio de mim. durmo ofendido, acordo agradecido. deito coberto de um choro longo, acordo com a vontade de lembrar o que foi mesmo que me fez tanto rir antes de dormir. e esquecer. e acordar.

mas as vezes a noite é fria. como essa hoje. e frio frio frio o vento castiga o meu sono. e não durmo. não esqueço. desisto de acordar e fico preso. sou o mesmo de ontem ainda. e ainda lembro. não pode ser assim, pois das minhas sortes, uma eu sei: é que sei dormir.

abraço o travesseiro, não tem outro jeito. enrolo cada dedo de um pé no seu irmão no outro. penso baixinho que a sorte existe, e sou assim. penso que estou lá dentro, quente. vivo. pulsando. batendo. bombeando sangue pro resto do mundo. um coração me abrigando. e me cubro de cúspides. me aninho no átrio. estou com sorte, pois sei dormir. e durmo.

mas esse frio frio frio. acordei num quarto vazio. e ainda lembro.

não pode ser assim.

sexta-feira, julho 25, 2014

نهاية

pra quem vive
nunca tem primeira vez
ou última

que do amor experimentamos
antes mesmo de conhecer a vida
do calor e aconchego
do alimento umbigo adentro
mesmo que te achem
parasita

e quando irrompe o choro no peito
por hoje esquecemos
mas a primeira vivência que existe
é de ser arrancado
e de chorar primeiro

mas pra quem vive
nunca tem última vez
pois é tudo primeiro

começo
e recomeço

terça-feira, janeiro 07, 2014

eu sou um pandeiro

uma das coisas que se aprende ao ficar mais velho é saber que não se pode lutar contra a vontade dos outros. dos esforços, o mais inócuo. porque por mais que você lute, a vontade do outro sempre é suprema. agora, ou depois, ela prevalece. e das batalhas, essa você sempre perde. melhor bater em retirada. 

e não é covardia, é da coragem de saber que por mais munição que a vida tenha te dado, ela nunca será muita, e ela  nunca será reposta por qualquer que seja a tropa de apoio que venha ao seu encontro. e você entrincheirado, sabe que o melhor é abandonar o fuzil e esquecer a guerra. 

e não é o cinismo que nos consola quando se fica mais tempo por aqui. ficar mais velho não é só pensar que os anos é só uma das voltas que a terra dá em torno do sol, porque você sabe que as vezes você é aquele sol. e você também tem aquele girassol mais belo do campo que te encara e te segue no céu, do seu nascer ao seu poente, pra durante a noite pesar suas pétalas e chorar com o orvalho fino, e acordar e levantar o rosto e continuar a te encarar e te seguir pelo céu novamente. 

mas as vezes existem as nuvens. e por mais que você ainda seja o sol, um reator nuclear infinito em tamanho em calor em energia em poder, aquele leve vapor de água, que fluido, fofo, branco e vaporoso vai te encobrir, vai te esconder, vai te deixar por trás do esquecimento.

e você caminha sob a lua então. e caminha e caminha. e vai pensando e escrevendo isso na sua cabeça. mas não sabe mais se isso você cria ou se isso sempre esteve aqui. embolado como fios. como o novelo caótico que são as coisas que você esconde. e por um acaso aquilo puxa o fio e traz aquele cabo desencapado que dá choque. e choque. e choque. e aquilo te repuxa os músculos e te convulsiona as coisas. e dá uma clareza, e te embola, e te anestesia. e assim você não sente aquela dor que corta, que rasga que arranca. sim, arranca. e arrancado de coisas você segue andando, acende um cigarro, sente o pé no chão doer e o cansado das pernas e o sangue subindo e circulando e pulsando em cada veia.

e as veias, que aumentam de calibre nesse momento, te mostram que sim, você ficou mais velho e saiu de mais uma batalha com todas as cicatrizes que você mereceu. as rugas que você ostenta ou esconde são cada uma delas uma historinha. e você conta como você ganhou aquela marca de batalha, e você relembra depois de um tempo e daí você nem é mais aquele covarde que parecia ter fugido como um cagão da guerra, mas talvez é o herói. ou talvez o vilão orgulhoso. ou talvez você é só você, com uma história a mais pra contar.

e a sua pele esticada é como um pandeiro tocando um chorinho daqueles bem tristes, descompassado porque as mãos estão duras, está frio, você está cansado. e tam tam tam você segue, sambando e caindo. bamba. sabendo com quantos sambas se faz um homem, com quantos compassos se bate a macumba que te faz vivo.

e vivo você vive e assim viverá até não poder mais. cada dia um dia como outro qualquer. uns melhores, outros piores, mas estatisticamente os mesmos. ou não. a matemática pouco diz dessas coisas que não se resumem à uma formula. ou quem sabe esse teorema é apenas mais um poincaré velho e esquecido que ninguém nunca resolveu. ninguém sabe, ou ninguém nunca me disse, e pra confessar, nunca fui bom com números.

mas eu olho esses números no calendário e sei que é quase meu aniversário. 

e eu envelheci de repente.


sábado, novembro 30, 2013

quid est

olha a placa, é sua rua. estranha porque por milisegundos não havia reconhecido aquele lugar. foi pouco tempo. talvez o asfalto novo da avenida principal que a cruza - quando foi que colocaram isso e nem notei? - mas era sua rua e dobrava a esquina para alcançar o prédio. sua rua. notou que no caminho o livro o ocupara e o consumira. notou que naqueles milisegundos de estranhamento, o caminho que levara pra chegar até sua rua não haviam sido os 20 minutos de caminhada mais os 20 minutos de ônibus - mais ou menos por aí - e sentiu naquele microtempo que o caminho tinha levado sua vida inteira. trinta anos pra chegar até ali, naquela esquina. naquela placa da sua rua. sua rua. pensava que no rio tinha uma rua de mesmo nome, mas de alma completamente diferente. pensou nas ruas como entidades vivas. biofilia. um tipo estranho de pareidolia astral.

sua rua. pensou enquanto descia - preciso escrever - e lembrou da escrita como algo de duas naturezas. escrevia desde cedo, desde quando não precisava escrever. mas Escrevia também. e Escrevia há mais ou menos onze anos no mesmo espaço que agora pensava - onze anos e três meses e nada saiu do lugar - e conjecturou por que escrevia. pra quem. quem ainda leria aquelas linhas. pensou na escrita e na Escrita. pensou na sua letra que hoje mesmo haviam questionado como conseguia entender - eu consigo ué - e lembrou de quando começou a Escrever e porque. pensava no espaço em branco que se abria em tantas possibilidades, mas que sempre se apresentava quando ele só via uma delas. pensou no porquê. pensou numa metáfora no elevador - o que há dentro precisa ocupar aquele espaço em branco, preciso ser o espaço em branco - e custava a entender qualquer razão pra isso. terapia. desova. expurgo. lembrou das palavras lembrou da antiga terapeuta que dizia que ele havia se encontrado em alguma coisa - na verdade não, é só um passatempo - não é só um passatempo. Escrevia. razão não sabe se existiria um dia, mas sabia que teria muito tempo pra encontra-la. onze anos, três meses e ainda nada. nenhum encontro. um tipo estranho de deus ex machina que nunca viria.

Escrevia. e lembrava dos rumos que havia tomado. uns certos, a maior parte errados, alguns indiferentes mas que de forma intrínseca transformavam tudo pois cada curva virada mudaria os rumos de qualquer coisa que não tinha forma, jamais teria, jamais haveria de se encontrar e isso o condenaria ou o amaldiçoaria por algum motivo obscuro. e pensou nas maldições e assombrações e lembrou do passado que o perseguia ele querendo ou não. e de todos os outros que ainda insistiam que ele era assombrado por fantasmas que para ele não eram nada disso. como mães. como sua mãe que ainda pensava que ele gostava de tal e tal coisa. e tinha certeza dos seus medos de infância como atuais. e que se surpreendia com qualquer mudança que nem nova mais era, mas mães. 

e lembrou da mãe. e do pai. e da barreira que se impunha pensar nisso.

e perdeu o caminho e o foco. as vinte e três abas abertas. 23. o número mágico. pura coincidência. contou agora, 23 - até que tem poucas, geralmente tem mais - e quase parou de Escrever para ler sobre o japão. responder a mensagem. saber mais sobre o incêndio. aquela vaga aberta. as fotos de cães engraçadas. um vídeo bizarro. foco. foco. foco. nunca teve. nunca teria - será? - a criação num ambiente bombardeado de tudo. as mudanças que viu em trinta anos. o gráfico ascendente e vertiginoso. uma montanha-russa. o barco viking.

lembrou do medo que tinha de barcos vikings - aquele brinquedo besta - já havia entrado em brinquedos bem mais desafiadores da sua capacidade de manter o que há dentro, dentro. giros espetaculares em tantos vetores possíveis. mas por que só aquela coisa besta de subir e descer. aquele pêndulo disfarçado de um navio - que jamais faria aquele tipo de movimento, bom frisar - que trazia a lembrança de medo. e só isso. e lembrou que não, não. havia entrado em um barco viking depois de velho e notara que aquele medo era infundado - até gostei - e lembrou de tantas coisas que esquecia. desde o medo que já não tinha até o amor que já não lembrava. e lembrou que já não amava algumas pessoas. e que algumas pessoas já nem eram memória. onde estavam aqueles sentimentos esse tempo todo? por onde andavam essas pessoas - quanto tempo, o que cê tem feito esse tempo todo - e toda sorte de pequenas fugas e falhas do hipocampo ao córtex.

e lembrava, por que Escrevia agora? havia um motivo. havia você. havia aquela ligação. havia aquela desculpa de não sair hoje - tou quebrado - havia. havia. o verbo que existe e possui. 

no passado. 

quinta-feira, novembro 07, 2013

skatoloj

só agora tinha notado que passara os últimos quatro meses dormindo no chão desde a mudança e que tudo estava ainda em caixas. toda a sua vida em caixas. de tamanhos e formas diferentes. e só agora olhou para aquele mar de quadrados e retângulos e quadriláteros marrons de papelão e pensou que aquilo tudo era sua vida. não tinha notado também que mesmo tudo que havia comprado desde então também ainda estava em caixas. a cafeteira ele comprou e fez algumas jarras de café, mas acabava sempre guardando-a de volta na caixa. os discos se apinhavam nas caixas já abarrotadas depois de ouvir algumas vezes. os copos alguns enrolados em jornal e empoeirados e alguns ainda úmidos viviam juntos, em caixas. toda a sua vida e pormenores em caixas. e passou a pensar nas caixas. não na vida. notou que quando comprou aquelas panelas novas e fez aquele jantar, a visão das panelas secas em cima da pia o incomodaram e ele precisou procurar as caixas ainda na área de serviço para as colocar lá dentro mais uma vez. os sapatos dormiam em caixas, mesmo os que estavam sujos de lama. toda sua vida. em caixas. compartimentos de cada pedaço seu no conforto de uma caixa. e o incômodo e o medo do que não tinha uma caixa específica. precisava ter tudo numa caixa. as da mudança ainda mantinham escrito ao lado em caneta piloto. roupas. decoração. livros. fotos. as coisas novas já não tinham o mesmo zelo, era apenas a inconspícua caixa marrom de papelão. mas cada uma ele sabia o que continha. as grandes. as pequenas. as mais amarrotadas, já desgastadas. algumas lacradas, nunca imaginou porque algumas dessas caixas sequer foram abertas, e ainda guardavam sua vida envolta em fita adesiva industrial. todos os pormenores de sua vida em caixas. no conforto de ter um invólucro marrom e discreto. fechado para o mundo. inacessível e encriptado nas suas semelhanças e falta de características. e pensava apenas nas caixas, não nas coisas. dentro das caixas, ele esquecia da foto daquele aniversário de quinze anos. dentro das caixas, ele esquecia daquele livro que mudou sua vida por um momento. o disco que ele pensou que era a trilha sonora da sua vida até aquele dia. dentro das caixas, sua vida estava compartimentada. claro, ele sabia onde estava tudo, e conseguia acessar cada um dos itens sem muito esforço. talvez apenas o esforço físico de se abaixar. abrir a caixa. romper o lacre. retirar cada um dos itens que estavam por cima. por isso inclusive deixava muito de sua vida em caixas. o esforço físico já o cansava só de pensar em mexer naquelas caixas. tantas caixas uma em cima da outra, muito trabalho mover. deixa pra lá. estava guardado. estava seguro. estava dormindo. em caixas.

quarta-feira, maio 22, 2013

le vent nous portera





o ciclo dos ventos nos molda com o tempo. de pedras duras e retas se fazem curvas, se moldam, se furam. não há barreira maior ou menor, o vento pede seu espaço. segue seu caminho. e sopra suave, como brisa. levando o pó. levando o brilho. levando a pele da terra. e sopra forte, como tormenta. e leva tudo. leva a casa. leva a memória. leva a paisagem embora. leva também o barco, que pensa que te domina. e assim pensamos que do vento fazemos música, e ele assobia. e pia. e canta. e soa. mas o vento traz o cheiro do mar, e leva embora o seu. o vento leva sua voz à mim, e cala nós dois nos dias mais frescos. o vento é apenas ar andando, o vento é pedir passagem. o vento é dizer tchau baixinho, no pé de seu ouvido.


(e querendo ou não, o vento sempre há de seguir)

quarta-feira, abril 10, 2013

de volta

o cheiro do ar é o mesmo, e ainda traz aquele gosto de sal. o silêncio faz o relógio gritar na parede. tudo parece igual, e parece que nunca fui embora. mas algo me diz por dentro que eu já fui, e talvez nunca consiga voltar.

o vento ainda carrega os mesmos sons distantes, de poucos carros que transitam e dão a impressão de ser um barulho de mar metálico e revolto. o calor ainda esquenta os olhos, a luz ainda cega. nada mudou e tudo está diferente. 

e talvez eu nunca volte.

terça-feira, janeiro 22, 2013

the hitchhiker's guide

é inevitável: uma estrada pressupõe um destino. pois estradas nada mais são do que espaços entre o que é o que será. ou coisas que são cada qual em seu canto e que se ligam. sem jamais se encontrar.

é inevitável. a estrada é caminho mas pra mim e o olho abrindo devagar de manhã e a luz desafiando einstein e entrando lenta nos meus olhos. as paisagens não existem pois na estrada eu vejo o destino. e sinto o cheiro fraco. o calor diferente. o ar que faz na pele outro sentir. longe ainda tenho nos olhos as imagens que verei.  quase chegando tenho na boca os sabores que provarei. e a estrada é passagem e passou.

(há quem olhe pela janela. e já olhei também. quando não havia destino e a própria estrada já se apresentada como o meu onde. a paisagem o largo o vento as placas os sinais marcações e cada entreposto posto e pousada. a estrada já é e foi e será sempre morada. quando o destino não existe)

é inevitável. o destino é um muro. ou um fosso. ou um fim. um precipício. os espaços entre o é e o será. sendo que o será é um muro. um fosso. um fim. um precipício. e onde está a paisagem se já vejo o destino-muro? já sinto o cheiro fraco do fundo? o calor e o frio do fim? a ventania que sobe das profundezas e traz na pele o leve arrepio que dá em cada pausa entre uma respiração prendida e outra.

a estrada e o muro chegando. o fim. a abandonado o destino - que nunca acolheria - os sinais e marcações. os entrepostos. postos. pousadas. a estrada é a morada. e do acostamento, a vida sempre pedindo carona.

terça-feira, novembro 20, 2012

amor líquido

e não importa o movimento das águas e o ciclo que fazem elas chorarem nesse céu que já foi de tanto sol. é na maré secante que mais sinto saudade.

domingo, novembro 11, 2012

10.11.12

secreto

e não foi por não tentar e insistir
e não acredito que você se deixou
mas não vai abalar ou demolir
o que tem, o que foi


vai sentida
o peso dessa decisão
teimosa ou ferida
sem saber o que será

e um fio dourado no meu travesseiro
é a prova e testemunha do que foi
mas tão frágil, se vai com o vento
o que tem, o que foi

vai sem pressa
demorando ou enrolando ou querendo ficar mais
não entendo o que se passa, mas a noite
vai saber do segredo que há


terça-feira, outubro 23, 2012

choiva

o corpo humano tem mais de 20 órgãos, mais de 630 músculos, 206 ossos. partes móveis e duras, partes moles e líquidas. linfa. sangue. fezes. urina. neurotransmissores. hormônios e outros milagres. o corpo humano possui partes e peles e nervos. o corpo é um objeto. e não é só físico.

uma parte é arrancada de um corpo e não é físico nem objeto. uma parte se arranca desse corpo e dói. mais que um dente extraído. menos talvez do que um membro sendo amputado. ou mais talvez. uma parte do corpo é arrancada e fica o vazio. não físico. nem objeto. o vazio.

o vazio ocupa espaço. o vazio existe. o vazio é coisa. o vazio dói. e o vazio está lá, no corpo humano. sendo falta e presença. sendo coisa e ausência.

o vazio acomoda-se. o corpo humano se acostuma com o vazio. e o vazio lá fica. por um tempo. não é nada, só um vazio. e ele não ocupa mais tanto espaço. ele existe. ele não é tão coisa. e nem dói tanto. o vazio é só um vazio, e faz as vezes de ser o que é. é aquela coisinha no fundo e dentro do corpo humano que não é órgão, músculo, osso ou líquido, mas que é. e você se acomoda. passa o tempo e é um ruído de fundo.

depois uma coisa surge e ocupa o espaço. você sabe os perigos, vai com calma. preenche a lacuna com aquela coisa líquida à conta gotas. de funil. aos poucos. mas transborda e enche o vazio que vira Coisa e é Algo. surge e ocupa o espaço. é física e é objeto. não dói como dente careado. não dói. é bom. é Coisa. é Algo. não tem nome, mas É.

e é arrancada de um corpo. mas não é.

e você volta pra casa na chuva, sentindo cada gota gelada em seu cabelo em seu rosto em seus óculos, encharcando cada fibra de sua blusa. ensopando seus sapatos suas meias maldito guarda-chuva que esqueci. você pensa na chuva. pensa que se ela lava esse céu imundo e triste, por que não lava qualquer coisa além de seu rosto pele e roupa. pensa no vazio. por que não pode a chuva já que invade tudo até o seu dedão do pé está molhado. por que não pode a chuva invadir. e preencher o vazio. de conta gotas. de funil.  a chuva só te deixou molhado.

talvez você pegue uma gripe.

karl marx is right

o tempo é a água que dilui tudo que é sólido. o tempo não dá. tira. o tempo apaga. o tempo escorre e enxágua. o tempo limpa. o tempo é o vácuo crescendo e engolindo a memória. clareando a cicatriz. transformando em mais fina areia a maior rocha ígnea. o tempo é o vento erodindo a montanha do ser. o tempo é a borracha. o tempo é cruel. 

mas tudo bem. o tempo cura.

060670

(depois de anos sem escrever uma música, me surge uma melodia e a letra saiu como se já existisse. que seja assim.)

quem lê

quando eu te encontrei
eu já me perdia

e não entendi você
pois não me entendia

o que eu posso te fazer
eu não me faria
pois eu sou como você
você é ainda

antes de me conhecer
cê já me conhecia

e não pude te esquecer
pois eu já sabia

o que eu posso oferecer
do que já não tinha
esperar o trem porque
você já partia

medo todo mundo tem
e sofrer é regra
pra cair em si porque
o amor entrega

mas não deixe de levar
o que tenho em ti
pois sei que vou precisar
pra cantar pra mim

você, você, você, você
você, você, você, você