sábado, março 27, 2004

"uaaaah"

bocejou longamente. as pálpebras pesadas se abrindo e rangendo e deixando entrar uma luz fraca nas pupilas. tudo vermelho. olhos pegando fogo. o relógio marcava sete horas e trinta e dois minutos.

"meu deus, estou atrasado para o serviço!" - pensou, alarmado.

abriu os olhos e revistou os cantos do quarto e então....que susto! uma morena de olhos morenos. alta do alto de seus quarenta e poucos anos. o rosto marcado por rugas e restos de cosméticos mal tirados. um sorriso alvo (e falso, depois decobririamos) e uma alegria esfuziante que agora o fuzilara de repente.

"meu deus! meu deus!" - brandava, braços abertos.

"qu..e...err...uh...hmmm...pf...pf..." - a boca seca não respondia ao comando de seu cérebro que ordenava "diga agora: 'quem é você'". enganchavam-se os sons dentro de sua garganta.

"calma, sou eu papai! a renata!" - acalmava o pai com os braços sobre os seus, que ensaiavam levantar, mas não conseguiam.

"como...re...na...ta..." - sua voz começava a voltar, enquanto a boca obedecia muito pouco aos seus comandos.

"você dormiu por trinta anos, papai. deitou um dia e só acordou hoje, trinta anos depois"

era verdade? ele sentia o corpo quase colado na cama. tinha diminuído de tamanho, será possível? a barba longa talvez denunciasse, as rugas espalhadas pelo corpo, a pele esbranquiçada e fina, veias azuis entrecortando-se sob ela. trinta anos tinham se passado e ele dormia. não era como nos filmes ou lendas urbanas, era com ele! sentiu de repente o hálito amargo de trinta anos passados em seu corpo, e não na sua mente. era como se cem quilos fossem somados ao seu corpo.

"o...quarto?"

"deixamos assim, para caso você acordasse não tomasse um susto...ah papai, tanto tempo que não nos vemos! não nos falamos! eu me lembro da ultima vez...eu só tinha dez anos e você..."

"sua mãe?"

"ah papai...ela morreu há vinte anos atrás. efisema. fumava muito e fumou muito mais quando você foi dormir...inclusive eu e o jonas..."

"e seu irmão?"

"é...o jonas está bem. mora em niterói, tem um filho. eu também tenho um filho papai, casei-me já fazem doze anos, o meu marido, você ia...."

"niterói?"

"é...niterói. ele não aguentava tomar conta de você! só eu que permaneci ao seu lado todo esse tempo...trinta anos cuidado de um quase morto...eu não trabalho, não tenho vida, passo todos os meus dias aqui esperando que..."

"meu deus...trinta anos...vocês gravaram o brasileirão?"

renata chora. trinta anos se passaram desde que ele tinha dormido. e trinta anos foram esperados para ela continuar aquela conversa que tiveram na mesa de jantar, no dia anterior ao acontecido. sempre permanecera ao seu lado, negligenciando o filho, o trabalho, e ela mesma. caiu em prantos, as mãos cobrindo o rosto.

"a...renata...como você...."

iria dizer "como você cresceu" mas caiu novamente em um sono profundo sem ao menos completar a frase que talvez aquietasse o coração aflito de sua filha.

acordaria vinte anos depois, na presença do seu bisneto rafael.

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